Eu já vi enterro de anão, cabeça de bacalhau, filho de prostituta chamado Júnior, disco voador, Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e Saci Pererê. Mas nunca vi rico honesto. Quando digo "rico", não me refiro àquele nobre batalhador do dia-a-dia que, pouco a pouco, vai construindo seu patrimônio e um dia chega a comprar uma casa grande e confortável, tem lá seus pequenos luxos, um carro importado etc e tal. Esse não é rico, ele é bem de vida, o que é outra coisa.
O rico, pela minha concepção, é aquele camarada que possui propriedades aos montes, tem uma coleção de carros, obras-de-arte, gasta numa noitada o que muito assalariado leva um ano para ganhar e faz questão de ostentar isso. E muitas outras coisas...
Um cara desses é honesto? Ele paga direitinho seus impostos? Nunca sonegou aqui e ali? Tem conta corrente só no Brasil?
Aí, os queridos leitores vão dizer que, por exemplo, muitos profissionais da televisão são ricos e, portanto, não são honestos?
Eu respondo da seguinte forma: tem muita gente na televisão que tem grana a dar com o pau, mas se analisarmos a história de cada um, veremos que a maioria não se dedica apenas à televisão, mas também ao teatro e, muitas vezes, dá aulas para aqueles que querem ingressar na carreira artística. E mais: ultimamente, pelo que me informaram, os salários na televisão estão menores do que anos atrás.
Sou amigo de um dos bateristas do Roberto Carlos, o simpático Norival D'Ângelo. Ele toca nos shows do "Rei", mora numa boa casa na zona sul da capital da paulista, mas não é rico. Ele vive do trabalho dele e, quando eu morava lá, na mesma rua que o Norival, me lembro de ver anúncios dele pelo bairro oferecendo aulas de bateria.
Por outro lado, existem aqueles que, na minha opinião, sobem na vida pisando nos outros. É apenas um pensamento meu, não uma acusação. Mas que existem pessoas assim, ah, existem, sim! Eu conheço vários!
Feliz ou infelizmente, eu não acredito que num país cheio de impostos e taxas como o Brasil uma pessoa consiga ficar rica agindo com plena honestidade.
Tomo como exemplo o meu falecido pai. Trabalhou desde pequeno, mas comprou sua primeira casa em 1976, aos 41 anos de idade! E não comprou a casa à vista, e sim para pagar em 20 anos.
Uma vez, ele comentou comigo que, antes do Plano Cruzado, deflagrado no dia 28 de fevereiro de 1986, quando o cruzeiro perdeu três zeros e a moeda passou a se chamar cruzado (Cz$) e houve congelamento total de preços e salários, ele, meu pai, ganhava por mês o equivalente a um carro popular. No ano seguinte, em 13 de junho, nasceu o Plano Bresser. Não houve corte de zeros na moeda, mas os salários passaram a ser reajustados a cada três meses por um índice chamado URP, que era a média de inflação dos três meses anteriores. Meu pai teve uma grande perda salarial aí. Passados 2 anos, ele me confidenciou que o salário dele havia sido severamente achatado com esses planos econômicos mirabolantes. No Plano Verão, instaurado em 17 de janeiro de 1989, onde houve mais um corte de três zeros da moeda, o cruzado, passando esta a se chamar Cruzado Novo (NCz$), com um dólar norte-americano valendo um cruzado novo, meu pai dançou, pois os preços subiram de elevador dias antes de o plano ser anunciado, e o salário dele ficou parado, no térreo. Todo o mundo estava sentindo no ar que haveria congelamento. Então, o que muitos comerciantes fizeram? Vendiam um produto, por exemplo, com o valor de Cz$ 300.000, mas com desconto de 70%. Se viesse o congelamento, tchau desconto. Muita gente fez isso que eu lembro. E essa prática era considerada criminosa, mas nunca soube de ninguém ir para a cadeia por lesar o consumidor.
Voltando a falar do meu pai. Ele se aposentou em 1991, recebendo alguns salários-mínimos por mês, o que ele chamava ironicamente de "gorjeta". Para um homem que trabalhou a vida toda, quase nunca faltou ao trabalho (se faltava era porque estava doente mesmo!), sempre contribuiu com a previdência social no teto, freqüentava restaurantes, pois gostava de comer fora. Não era dado a luxos, mas tinha lá seu aparelho de som 3 em 1 (lembram-se?) meio sofisticado, um carro usado na garagem, enfim, as coisas que um cidadão da classe média na época tinha.
A aposentadoria para o meu pai não era suficiente, mesmo ele tendo cortado muitos gastos (restaurantes, só de vez em quando). Então, colocou a casa para alugar. Foi aí que o meu pai começou a morrer. A casa que ele levou 20 anos para pagar estava nas mãos de outras pessoas. Em 1999, os inquilinos foram embora e, no final das contas, o meu pai vendeu a casa. Nisso, ele já estava bebendo e fumando horrores, deprimido, com síndrome do pânico, tinha diabetes e não sabia (aliás, ele não ia a médico de jeito algum) e naquele ano de 1999, em pleno Dia dos Pais, teve um AVC (derrame cerebral). Durou mais 6 meses. Uma vida de luta que terminou assim. Meu pai bebia, sim, mas muito pouco. Era um aperitivo na hora do almoço, outro no jantar e, nos finais de semana, uma caipirinha e uma cervejinha. Sempre estava lúcido. Depois que se aposentou, tinha a sua disposição as 24 horas do dia para fumar e beber, beber e fumar.
Depois de saberem de um pouco da história de vida do meu pai, garanto que vocês, queridos leitores, conhecem muita gente que teve uma trajetória de vida parecida.
Tirando aqueles que ganharam em alguma loteria ou nasceram em berço esplêndido, volto a perguntar: existe rico honesto?
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